segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A vitrine iluminada

(Foto: Canopus)

Dentro da vitrine, o manequim dormia feliz, sonhando com um mundo em que ele poderia ser gente. Em seu sonho, os manequins podiam ter vida, enquanto as pessoas viviam como bonecos, tipo marionetes, sem a consciência de seus títeres.
O manequim dormia em sono profundo quando um clarão o retirou de seu quase eterno torpor. E ali, dentro da caixa de vidro, que era aquela vitrine, tudo se iluminou... E a noite fez-se dia, quase que por encanto...
Mas o manequim, diante da intensa claridade que lhe cegava, pouco a pouco foi percebendo uma algazarra, de vozes e mais vozes se aproximando da vitrine. Alguns vultos irreconhecíveis vinham admirar sua beleza. E ele, o manequim, sentiu-se primeiro como um peixe no aquário, depois um prisioneiro de si mesmo.
Mas, infelizmente, aquela noite que se fez dia e o sonho que tornou-se realidade, não duraram muito; pois, quando o boneco de gesso quis se movimentar, continuou estático, só lhe restando mover os olhos em direção ao público aglomerado diante da vitrine. Era um estranho casal que não se olhava nos olhos e duas crianças que não piscavam jamais, mas que do outro lado do vidro agiam como que encantados por sua vida tão banal. Não se mexiam, não falavam, apenas o olhavam sem mesmo piscar os olhos, sempre em sua direção. Uma família misteriosa que adorava visitar vitrines e nada mais.
Quando o manequim, enfim, começou a mexer os dedos dos pés e depois os das mãos, apesar de algumas rachaduras em sua pele, pôde dar alguns passos em direção à vitrine, quando algo sobrenatural aconteceu. A caixa de vidro iluminada pela luz do sol artificial, de repente se escureceu de novo, num blecaute interminável...
A última imagem que o manequim pôde recuperar de sua memória, antes da escuridão total, foi o olhar de espanto dos quatro seres do outro lado da vitrine iluminada, quando o boneco quase tocou naquela mágica vidraça. O mais velho e alto deles sacou de uma estranha arma, cheia de botões e apontou em sua direção, disparando um raio de luz, e o sol nunca mais apareceu. Algo que o impressionou por demais. E daquele momento em diante, o manequim petrificado voltou a sonhar em tornar-se gente, enquanto os quatro seres do outro lado da vitrine preferiram viver, como sempre, presos em si mesmos, visitando vez por outra vitrines iluminadas por sua aflição.

12 comentários:

Elis Zampieri disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elis Zampieri disse...

Oi Zé! Hoje li uma crônica do Rubem Alves chamada Passarinho Engaiolado, lembrei do seu conto. Na crônica ele fala "Não há muito o que fazer dentro dos limites de uma gaiola, seja ela feita com arames de ferro ou de deveres. Os sonhos aparecem, mas logo morrem, por não haver espaço para baterem suas asas. Só fica um grande buraco na alma, que cada um enche como pode."

E é assim, muitas pessoas permanecem engaioladas uma vida inteira, até mesmo quando alguém esquece a porta aberta, o medo impede-os de voar. A monotonia é o preço que se paga pela segurança.
Gostei muito Zé. Lindos vôos para você!

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Elis. Enquanto não conseguimos um(a) ilustrador(a), pensei que podíamos, cada um ilustrar a postagem do outro, a partir de iamgens que busquemos na internet, agindo como escritores de nosos textos e leitores do texto alheio, pra marcar a percepção de um no trabalho do outro. Que achas? Um abração! Zé.

Elis Zampieri disse...

Acho a idéia bem interessante Zé. vai ser legal! Bjos e ótima segunda-feira.

José Antonio Klaes Roig disse...

Muito bonita a iamgem tb, miga. está ficando legal essa interação entre textos e imagens, um escrevndo e o outro ilustrando. Abração,

J.F. Costa disse...

não há como não lembrar da grande banda R.E.M., um grupo de rock estadunidense que fez muito sucesso no final dos anos 80.
o conto sobre o manequim, me lembrou a caverna de platão. onde as sombras se equivalem ao público que visita a vitrine.
achei interessante esta letra do r.e.m., da música 'daysleeper'.

coloco aqui a tradução:

Aquele que dorme durante o dia

Recepção, 3 horas da manhã,
O pessoal do estoque controlou efetivamente o excesso.
As diretrizes estão publicadas.
Nenhuma chamada de reclamação,
Tudo está calmo.

Hong Kong está presente,
Taiwan acaba de acordar,
todos falam de rítmos circenses.

Eu começo o dia de hoje com a notícia de um conflito
Minha noite está colorida com uma cinzenta dor de cabeça
Eu durmo durante a manhã

O touro e o urso marcam seus territórios.
Eles conduzem os cegos com suas glórias internacionais.

Eu sou o anteparo, a luz ofuscante
Eu sou o anteparo, eu trabalho durante a noite.

Eu começo o dia de hoje com a notícia de um conflito
Minha noite está colorida com uma cinzenta dor de cabeça
Não me acorde com tantas coisas assim...
Eu durmo durante o dia.

Eu chorei outra noite,
e nem me lembro o porquê.
A cafeína pura e fluorescente ilumina seu balanço furioso.

Eu sou o anteparo, a luz ofuscante
Eu sou o anteparo, eu trabalho durante a noite.

Eu começo o dia de hoje com a notícia de um conflito
Minha noite está colorida com uma cinzenta dor de cabeça
Não me acorde com tantas coisas assim...
A máquina oceânica está programada para às 9
Eu a apertarei em direção ao céu e a minha namorada.
Minha cama está me empurrando, gravidade
Eu durmo durante o dia.
Eu durmo durante o dia.

Eu durmo durante o dia.

abração

Mateus disse...

Uauuu
muito bom o texto (esse blog)
parabéns
beijo

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, J.F. , REM, a banda , não tem como deixar de lembrar.
Quanto a referência a Caverna de Paltão, naõ li ainda. Está na minha lista de leituras pós-mestrado. Mas interessante a tua colocação, vou conferir. Grato pela visita e comentário, amigo. Um abração, Zé.

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Mateua, o REM é um blog em parceria minha com a Elis, e os textos estão suurgindo aos poucos, um ilustrando a obra do outro. Apareça mais vezes. Obrigado pelo comentário. Um abração, Zé.

Gabriela disse...

Porque as pessoas legais, que escrevem coisas legais, não são vistas por todo mundo? Adorei a crônica, eu fico tentando escrever as coisas. As vezes sai algo legal, mas são poucas as vezes.
Vocês ganharam uma leitora!

Gabriela disse...

Eu acho que meu comentário não deu certo. Então vou colocar outro .
Eu adorei o blog, muuito legal! E a crônica da vitrine também! eu vivo tentando escrever as coisas, mas só saem coisas pequenas hehe
Muito bom, até add vocês na minha lista de blogs!

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Gabriela. Poxa, que legal que você gostou desse projeto parceria minha coma Elis, que não nos conhecemos pessoalmente, apenas pelo mundo virtual,m as que somos colegas e amigos. Seja sempre bem-vinda. Pois é, nem sempre se consegue mostrar na grande mídias projetos criativos s diferenciados, como esse e outros tantos que existem por ai. O horário nobre é muito restrito, no que chamo de "nepotismo cultural", só loteado para os amigos de quem detém a mídia. E nem sempre que aparece, de fato merece, salvo por ser amigo do "rei" ou "rainha", ih, isso dá ate um pequeno conto futuro, kkkk Grato pela comentário, miga. Elis que táq de férias e viajando, qdo voktar deve ficar , como ela diz, F-elis da vida com teu elogio ao blog. Um bjão, Zé.

Ah, tem outros 2 blogs coletivos, em que participo, e são bem legais tb:
RPG - Role Poetic Games
http://jogospoeticosvirtuais.blogspot.com
e
GPS - Global Poets Society
http://gps-poetasdomundo.blogspot.com
Bjs