segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Palavras mágicas...

Foto: Bruno Abreu

Era um dia como outro qualquer, salvo aquela impressão de que aquele dia não era um como outro qualquer....
O menino tímido observava ao longe à menina de seus sonhos. Ambos sentados na praça sem nome, mas cada um em um banco distante. - Como os dois estavam distantes, ele pensara consigo mesmo, mas ao mesmo tempo, retrucava pra si: - Como a sentia tão próximo dele.
Era um lindo dia de sol. Cada um dos jovens, com um livro na mão, vivia em reinos distantes. O que os unia era a paixão pelos livros...
O menino, como de costume, iniciava a ler qualquer livro sempre pelo seu final. Dizia que todas as histórias que ele conhecia começavam sempre com o insosso “Era uma vez...”, e que sempre terminavam com o previsível “E foram felizes para sempre...”.
Para ele, tudo era história de faz de contas mesmo, pois nunca conhecera alguém que tivesse sido “feliz para sempre”. Nem seus pais, tampouco seus avós, muito menos os pais de seus amigos e os avós deles. E nem se referia a viverem juntos, pois juntos muitos deles viviam até morrer, mas não pareciam nada felizes para sempre... Não pareciam sequer um dia felizes, sempre distantes mesmo quando aparentavam estar juntos. Nunca de mãos dadas. Mãos dadas mesmo só se uniam em oração e quando sozinhos. Enfim, para o menino, histórias com final feliz só existiam no tempo do “Era uma vez”, com certeza. E em algum reino distante que só criava vida no papel.
Mas naquele dia, munido de um pedaço de luminoso lápis azul que encontrará ali no canto do banco da praça, ele começou a rabiscar no livro que pegara na biblioteca pública o complemento de diálogos, riscar, desenhar e acrescentar detalhes, reescrevendo todo o roteiro...
Foi nesse instante que algo mágico começou a acontecer no livro de histórias de fadas que a menina lia do outro lado da praça. As palavras começaram a se embaralhar, reagrupando-se e se organizando doutro modo, alterando a sequência tradicional da história narrada... A menina, como uma princesa encantada, foi encantando-se pela nova história, pois ela também já estava cansada de histórias de faz de contas com o mesmo início e fim...
E a cada palavra viva, algo na menina foi transformando-se... Uma estranha magia foi tomando conta de seu corpo e mente... E o menino, sem dar-se conta disso, foi dirigindo a nova história para um final em aberto, inacabado, coisa rara nos livros que ele e a menina conheciam... Mais fiel ao que via ao redor, o menino olhando fixo para a menina, passou a desenhá-la na história, junto ao seu próprio autorretrato rabiscado com o tal do luminoso lápis azul. Seu desejo era poder um dia conhecer a menina de seus sonhos, que ele agora sabia existir além de sua imaginação...
A menina de seus olhos, ao reconhecer no livro os traços do menino ali em frente - e que antes ela nunca o vira daquela forma -, passou a encantar-se com a possibilidade de deixar o menino desenhá-la da forma que lhe fizesse feliz. De longe, sorriu de um jeito enigmático, o mesmo sorriso que o menino antes desenhara em seu livro de rabiscar emoções.
E assim a história continuou com o final em aberto, ainda que vez por outra, todos os dias, mesmo quando os dois – menino e menina - não estavam frente a frente um do outro, ela abria o livro encantado pra ver que palavras mágicas o menino havia escrito ou desenhado somente para ela...
Num reino distante dali, um jovem poeta, filho de um pintor de retratos, desenhava aquela história toda, com o seu lápis azul, que fazia quem a lia acreditar que os sonhos escritos poderiam tornar-se um dia realidade, iniciando aquela história com um “Era uma vez” e terminando-a com um “E foram felizes para sempre...”

5 comentários:

Gabriela disse...

Hum... Interessante seria se pudéssemos escrever nossas histórias dessa maneira, mudando com um simples rabisco o final de uma história... E o melhor é que não seria mas sim, é, porque fazemos isso com nossas vidas todos os dias muitas vezes sem perceber!

José Antonio Klaes Roig disse...

Também acho que de certa forma, usando ou não lápis, desenhamos através de nossos atos, não apenas a nossa vida mas a de quem amamos, mas isso só o tempo é que nos conta com o devido tempo. Brigadão, querida, pelo comentário. Um abração!

Gianluca Zampieri Panisson disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Elis Zampieri disse...

E entre rabiscos e obras de arte vamos desenhando nossas histórias...O traço perfeito, os borrões, nossas escolhas e não escolhas-como você fala, vão compondo a tela da nossa existência.
E se a realidade fica de repente cinza demais algumas pinceladas de cor e tudo fica mais bonito. Essa é sua especialidade, amigo querido...A-cor-dar.
Bjos

José Antonio Klaes Roig disse...

Nossa Elis. Que maravilha de imagem e de comentário. Vindo de uma colega e amiga talentosa como você, abre nossas colorações sobre o texto. A-cor-dar, adorei essa expressão. Poética demais. Brigadu! Um abração!