terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O arranha-céu

Imagem: Autumn-Stairs Dianne Poinski

O menino que cresceu demais, acompanhou, primeiro da janela de casa e, depois que esta ameaçou desabar, fora dela, o crescimento da pequena cidade chamada de tão-somente Pequena Cidade.
O menino foi percebendo que o seu pequeno mundo, antes parecendo gigantesco, foi diminuindo a cada dia, enquanto a cidade em que o tempo se perdia sem tempo de se achar, foi aumentando a olhos vistos. Mas assim como o amor de pais com seus filhos, que só percebem que estes cresceram quando já são gente feita, o menino só percebeu que a sua Pequena Cidade pequena não era mais a mesma de sua infância perdida, quando após duas décadas distante, para lá retornou...
Muitas das casas da sua rua já não existiam mais, seus amigos já não o reconheciam mais também. Ele era um estranho em sua própria cidade, que cresceu como os filhos distantes dos pais...
Então, o menino que por fora já era homem feito, mas em seu interior não mudara em nada, resolveu ficar ali na sua antiga Pequena Cidade, já não mais tão pequena assim.
De vez em quando algum político quer mudar o nome da cidade, mas a tradição não permite. O povo da Pequena Cidade é muito tradicional, mantém tudo no seus devidos lugares, ainda que quase nada esteja mais nos seus devidos lugares...
O que mais encantou ao menino de volta a sua terra natal, justo na semana em que se comemorava o Natal, foi um enorme prédio erguido onde antes apenas havia uma pequena casa, a casa da sua infância perdida. Para os padrões daquele município que durante muitos anos sequer existira em algum mapa, aquele prédio de vários andares era um quase arranha-céu... Os moradores se revezaram aos fins de semana pra subir lá no alto e ter uma visão panorâmica de toda a região.
Quando o menino, já não mais tão menino assim, viu aquele prédio, resolveu ali morar... Como estava desempregado e tinha poucas economias, pode apenas alugar um pequeno quarto no primeiro andar. A partir de sua admissão numa empresa da cidade, logo seu poder aquisitivo lhe permitiu mudar para um quarto maior, no segundo andar, e assim foi se sucedendo a cada ano na vida do menino que cresceu demais, que bem de vida, foi melhorando de emprego e galgando andar após andar, até que já envelhecido e estabelecido na cidade, foi morar na cobertura do arranha-céu...
Curiosamente, quando lá chegou, tão elevado que estava, seus dedos bem que pareciam arranhar o céu da sua (mo)cidade, e desde que se instalou no melhor apartamento daquele prédio imenso para os padrões da Pequena Cidade, já não tão mais pequena assim, ele desapareceu quase que por encanto... Nunca mais ninguém ouviu falar dele, tornando-se mais uma lenda urbana entre outras mil...
Há quem diga que cada um tem dentro de si um pouco de pequena cidade e outro tanto de arranha-céu... Basta que o(a) menino(a) que existe em cada um não cresça demais e desapareça, além de sua cidade...

Observação: Microconto escrito ao som da canção Notting Better, da banda The Postal Service.

6 comentários:

Semíramis Alencar disse...
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Semíramis Alencar disse...
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Semíramis Alencar disse...

Oi, Elis
Oi, Roig

Parabéns pela iniciativa do R.E.M - O que me encanta no sono são os sonhos - eles nos levam para junto daqueles que amamos e nos possiblita a viver momentos de suma felicidade - janelas do inconsciente que podemos abrir, quando e como desejamos.

Lindo conto, amigo, não sei porque esse menino-grande me é muito familiar! parece que o conheço de algum lugar, o lugar dos sonhos de meu mesmo lugar...

um beijo e sucesso sempre

Semíramis

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Se...
Brigadão, querid'amiga pela visita no R.E.M., um ambiente colaborativo que divido com outra grande amiga, a Elis.
Esse conto me ocorreu por acaso, enquanto estava ajudando na obra de minha casa. O alicerce fiz durante o dia, a obra de criação e escrita á noite.
É uma metáfora viva pra a própria vida que alicerçamos.
Fiquei muito contente com teu incentivo ao R.E.M. Um abração, Zé Roig.

Elis Zampieri disse...

Profundo Zé... A ambição que existe em cada um de nós, tanto pode nos fazer rastejar como voar. As vezes quando tomados por um desejo que vai muito além de suas necessidades as pessoas acabam perdendo-se de si mesmas.
Adorei o conto e gosto muito dessa sua capacidade de pensar por metáforas, sempre tão bem retratadas em seus contos.

Bjo, Elis

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Elis. A i magem que você ilustrou o meu conto é belíssima e simboliza mesmo a ideia central da história. Grato, querid'amiga pela parceria literária, pela amizade e coleguismo. Um Feliz Natal pra ti e família. Um abração, Zé.