quinta-feira, 2 de abril de 2009

Olhar Implacável


(Tela de Pablo Picasso)

Cruzou com ela hora qualquer do dia. Tinha muito tempo que não a observava com atenção. Mirou-a, frente e verso, não aprovou o que viu. Estava um bocado abatida, e aquelas olheiras então! Havia engordado também. Os cabelos brancos insistiam em denunciar seu auto-descaso. Que desleixo! Tinha o olhar vazio, sem brilho e algumas rugas precoces.

Já fora mais feliz. A vida que já fora mais generosa com ela, agora parecia esvair-se fazendo-a parecer estranhamente inanimada. Espantou os pensamentos piedosos. Não gostava deles.

_ Reage menina!!! - Pensou com seus botões - Tão jovem ainda!

E que peso parecia carregar sobre aqueles ombros que pendiam para frente como se sobre eles descansasse o mundo.

Não era feia, mas os traços delicados se encondiam agora sobre as sombrancelhas esguias que quase se encontravam sobre o vinco fundo formado entre o vão dos olhos. Tinha apenas trinta e dois anos, mas aparentava quarenta - para ser generosa com ela.

_Para de pensar bobagem e vai cuidar da sua vida!
Era isso mesmo que ia fazer. Cuidar da vida. Afinal sabia quanto os espelhos eram cruéis e o quanto as coisas desta vida eram passageiras.

Olhou para fora e para dentro dizendo para si mesma o que ela, previdente e parcimoniosa julgava saber de tempo.

_Sossega criatura, você já morreu tantas vezes que já devia estar acostumada.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Lógica de criança


No telefone:
_Filho, como é mesmo o nome do seu dentista? Aquele que ficava perto da escola, o último que te levei... Vou indicar à mãe do Beto.
_ Ah! Aquele que ligou aqui em casa semana passada?
_ Esse. Esse mesmo!
_ Hum... é que ele não falou o nome não. Acho que era o fulano de(n)tal.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Sobre Flores e Jardins


(Foto de Maria Fernanda P. Barreira, do Flickr)

Dirijo-me para o canteiro colorido monocromaticamente pelo amarelo das sempre vivas, descansando meus olhos sobres elas.
Quando criança inquietava-me o fato de as sempre vivas não morrerem.
Hoje compreendo. Elas morrem, mas insistem em manter algumas de suas características vivas como a cor, por muito tempo e apesar da textura seca e do pouco viço, confundem-se facilmente com outras espécies vegetais vivas.
Não são portanto, sempre vivas, são mortas-vivas que à exemplo de algumas espécies racionais desistem de si mesmas, abandonam-se, morrem vivos... Perdem o viço, o brilho, a energia, o desejo, o lirismo.
Trabalham, andam, conversam e se comportam como robôs pré programados desprovidos de prazer, euforia ou entusiasmo. Ora, uma obrigação de quem está vivo. Mantêm a estrutura e sofrem de falência interna.
Sempre vivas são flores artificiais. Ao contrário destas, algumas espécies sabem que precisam morrer verdadeiramente infinitas vezes para tornar-se vida. Assim, não retardam esse momento.
No jardim da casa de minha mãe, havia uma flor, chamada onze horas. Durante a maior parte do tempo mantinha-se fechada, parecendo morta. Mas quando o sol atingia o auge de sua intensidade, desabrochava todo seu encanto, perfume e beleza. Morria e renascia um pouco a cada dia.
Acho que quando Deus criou o mundo desejou um grande canteiro de onze horas. Mas no meio delas, assim como ervas daninhas que nascem sem ninguem semear, germinaram sempre vivas. Um dia, talvez elas entendam que precisam assumir a morte, para transcenderem.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A Cigana

(Foto de Carlos Bacha.)

Cercada de mistérios, deusa cigana, detentora dos segredos e conhecedora dos enigmas das linhas encravadas nas mãos. Sábia e assertiva, dominava os saberes ocultos, orientando os que desvendavam seus poderes.
Revelava-se verdadeiramente à poucos. Aos que tinham olhos e ouvidos atentos; mente e coração receptivos.
Era na imensidão - lago que dava vazão aos olhares perdidos - que revelava sua face e descortinava os caminhos.
Foi no compasso de duas luas, uma cheia, outra minguante que surgira.
Foi um olhar único de uma só inteireza que revelara-lhe a cigana, aquela que lhe daria as respostas há tanto procuradas.
Um único mistério ainda pairava no ar. Da imagem dual, mal definida, surgia uma sombra que impedia visualizar-lhe o rosto. Sua identidade mantinha-se ainda em segredo.
Mas eis que o sol acariciando a areia da praia fez dissiparem-se as trevas. A imagem da cigana sumindo ao longe, confundindo-se à linha do horizonte. Na areia com letras douradas pelo sol, a cigana revelara seu nome, seu último segredo: INTUIÇÃO

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

O primeiro cadáver do Azevedo


O suor escorria-lhe a face, as mãos ainda trêmulas, a respiração arquejante. Era seu primeiro, mas sabia, não seria o único. O desejo manisfestara-se incontrolavelmente tentador. Nenhum sentimento de culpa. Era prazer o que sentia. As mãos quentes sujas de sangue contrastando com o álgido corpo delgado que jazia em sua frente. O líquido viscoso escorrendo formara uma poça sobre o piso branco de linhas perpendiculares.

A sala de pintura sóbria, a cortina preta, o compartimento escuro... Pelas frestas da parede, alguns poucos raios do sol que já ameaçava se por, iluminavam de maneira desuniforme o local.

Olhou para os lados certificando-se de que ninguém testemunhava o ato. Eram três. Ele, o cadáver, e um silêncio absurdo transbordando no vácuo, interrompido apenas pelo som das batidas do martelo.

Ajeitou-o com cuidado sobre a mesa. Os olhos fechados, o cabelo arrumado, a pele limpa com um chumaço de algodão. E um ritual cumprido.

Olhou para o corpo inerte. Lembrou da promessa feita ao pai pouco antes de sua morte. Seria advogado.

Ele haveria de entender. Afinal herdara dele próprio esse gosto. Seria mais um Azevedo, agente funerário.

sábado, 10 de janeiro de 2009

(R)evolução



Ano:2050

Planeta: Terra

A genialidade humana faz o mundo chegar ao ápice da sua evolução tecnológica e científica. Ao mesmo tempo, humanos passam por um estranho fenômeno. São aos poucos transformados em corpos solidificados em ferro e fibra. O fenômeno, a princípio imperceptível, tem como principais sintomas a diminuição das sensações e dos sentimentos. Atinge inicialmente o coração que passa por um processo de endurecimento gradativo até petrificar-se completamente e assim, outros órgãos vão sendo atingidos pelo fenômeno. Em pouco tempo, o corpo ganha formas compactas, muito semelhante à das máquinas. Homens-máquina são criados aos milhões todos os dias, principalmente nas grandes metrópoles.

Fruto de sua extraordinária inteligência e da iminente necessidade de apoio às suas tarefas, cada vez mais amplas e difusas, passam a criar robôs dotados de “qualidades humanas”.

Assim, passam a conviver civilizadamente, homens robotizados e robôs humanizados.

Mas os cientistas alertam para o surgimento de uma nova espécie já encontrada em algumas partes do planeta. Denominada pelos estudiosos como Homo Conscientes, a nova espécie tem formas físicas muito parecidas às do Homo Racionales, difere-se no entanto, no uso consciente da sua inteligência.

Creio que estes não necessitem criar robôs à sua imagem e semelhança.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Colcha de Retalhos


Despejou seu corpo arfante sobre a cama enquanto pensava em cada uma das formas coloridas que entremeavam a colcha já antiga e desbotada que descansava sobre ela. Fora colecionando pedaços que ganhara. Cada um guardava uma história. Histórias de muitos, alguns que nem mesmo conhecera, outros que já não recordava o nome.
Mas já não suportava encobrir-se com ela. Divagou em pensamentos, cochilou...
Um vento vigoroso adentrou à janela desamarrando os fios que uniam cada parte da colcha que lentamente se desfazia no ar e sumia no horizonte.
Fora tomada, de súbito por uma sensação de leveza indescritível. Sorriu, voltando o olhar para a cama nua. Sobre ela repousava agora, apenas um novelo de lã e um par de agulhas.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Um caso Gramatical


Ele, sujeito simples
Artigo bem definido
Fazia um gênero assim, primitivo.
Ela, monossilábica solidão.
Procurando seu verbo de ligação.
Se encontraram, deu-se a conjunção.
Ela átona
Ele, um hiato silencioso
Mas era fato, estava posto
Mera análise sintática
Do seus pretéritos tão imperfeitos
Para o seus períodos compostos.

(...)

E o futuro
Estava escrito
E nas letras
A explicação
Da semântica existencial
Uma aliança selada
Um complemento nominal.
Por amor e concordância
E não havendo nada a mais
Uniram em cerimônia
suas sílabas bilabiais.
E seguem assim, juntos
Para o verbo amar
Até o infinito conjugar.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Rápido movimento do olhar - O blog


O que é R.E.M.?
Além de nome de banda de rock norte-americana, segundo a wikipédia é:

"O sono R.E.M., ou Rapid Eye Movement (Movimento rápido dos olhos), é a fase do sono na qual ocorrem os sonhos mais vívidos. Durante esta fase, os olhos movem-se rapidamente e a actividade cerebral é similar àquela que se passa nas horas em que se está acordado. As pessoas acordadas durante o sono REM, normalmente, sentem-se alertas, com maior índice de atenção e refrescadas, ou mais dispostas e prontas para a actividade normal. Os movimentos dos olhos associados ao REM são gerados pelo NGL (ver versão inglesa) do Tálamo e associados a ondas occipitais. Durante o sono REM o tônus muscular da pessoa diminui consideravelmente.

Duração do sono REM
Durante uma noite de sono, uma pessoa normalmente tem cerca de 4 ou 5 períodos de REM, que são bem curtos no começo da noite e mais longos no final. É comum acordar por um curto período de tempo no fim de um acesso de REM. O tempo total de sono em REM ronda os 90 a 120 minutos por noite para adultos. Entretanto a quantidade relativa de sono REM diminui acentuadamente com a idade. Um bebê recém-nascido dorme mais de 80% do tempo total de sono em sono REM; enquanto uma pessoa de 70 anos dorme menos de 10% em sono REM. A média para adultos jovens é 20% do tempo total de sono ser em sono REM. (MARKS, 1995; REIMÃO, 1996; SIEGEL, 2003)."


Fonte:
http://pt.wikipedia.org/wiki/REM_(sono)

Objetivo do blog:

Parceria entre José Antonio Klaes Roig, educador, poeta e escritor, residente em Rio Grande - RS - Brasil, com Elisângela Zampieri Panisson, educadora, poeta e escritora, residente em Curitibanos - SC - Brasil, que como colegas e amigos virtuais, resolveram criar um ambiente virtual para escrever coletivamente breves poemas e minicontos, além de pensamentos passageiros sobre coisas duradouras da vida real e virtual.

Observação: Imagem extraída da internet, do endereço abaixo, meramente ilustrativa da questão do "movimento rápido dos olhos", pela questão de olhar com um relógio em seu interior...
http://www.overmundo.com.br/_banco/multiplas/1217195678_olhos.jpg