domingo, 24 de janeiro de 2010

Palavras Roubadas


("Menina da boina verde" , Mily Possoz, 1930)

E depois fiquei ali, sem desgrudar os olhos do chão.
Era uma menina. E só. O decote nem tinha sentido. A blusa era bonita. E só. Mas o pai insistia em achar que tinha... e aqueles olhos que sempre falavam. Mania que o pai tinha... com a boca sempre tão pouco. E aquele calafrio na espinha que teimosamamente subia em direção ao pescoço sempre que isso acontecia. Como faca, cortante.
O silêncio. E só.
Os olhos então passeando rápido sobre as peças alinhadas milimetricamente pela mãe. Melhor não contrariar. Melhor. Sempre assim.
Se pelo menos falasse, se pelo menos me contasse uma história. Ou então, se já percebesse que não era mais sua menina de contar histórias na cama, dos dias que o mau tempo lhe prendia dentro de casa e que a chuva fazia uma poça debaixo da janela e eu ria quando dizia que era a tristeza de Deus, e os rios, mãos que represavam suas lágrimas, que me perguntasse sobre o menino que jogou flores pela janela do quarto, e do livro que eu escolhi para guardar a lembrança.
Os olhos que falavam. E só. E eu que nem sempre entendia. Dialeto difícil o do pai, as vezes.
O cobertor cobrindo o corpo, como o abraço do pai. Apertado. Ausente. Oito horas. O relógio da igreja anunciava.
O chão, os vincos desenhados sobre a madeira. O silêncio. E só.

4 comentários:

Textos variados disse...

Alguém comentou no meu blog como é bom ler e ver, só agora a ficha caiu... no meu tempo, todos os pais (e mães também) pareciam sempre falar com os olhos. Também às vezes preferia que gritassem, tão profundo era o olhar! Não vejo mais isso atualmente. Mas seu post me fez lembrar.

José Antonio Klaes Roig disse...

Querida Elis, há toda uma poética no olhar, e você, como sempre, tem uma poética própria de olhar e enxergar nas coisas toda a beleza e "tristeza de Deus". Maravilha de texto. Os olhos falam sem a boca precisar... Um abração!

Tati Campêlo disse...

Estou divulgando meu novo blog
www.gastronomiaefotografia.blogspot.com
Se puder da uma passada lá!

Atenciosamente
Tati

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Elis, para ilustrar teu tetxo, encontrei essa imagem da Menina da boina verde, que achei bem a ver com a história contada.
Colotei a imagem no enderçeo abaixo:
http://erilainepoeta.blogspot.com/2009/01/olhos-de-menina.html
Um abração, Zé.