quinta-feira, 4 de junho de 2009

Papéis

Imagem: colagem de José Roig


Como de costume veio receber o dono no portão de casa. Bem sabia o cão distinguir os cheiros. Abanou o rabo e se contentou com o afago ligeiro.
Tardava mais um dia e o cansaço lhe tomava o corpo, afinal foram oito horas entre dez da manhã e seis da tarde recolhendo papéis. Setenta quilos naquele dia, nada mal para uma quarta feira. O montante do dinheiro reunido com o saldo da semana anterior, devia ser suficiente para pagar a conta da venda e ainda comprar presente para o filho que completava anos no domingo.
Sentou-se no banco de madeira bruta em frente ao fogão de lenha. O fogo aquecia a casa e a labuta diária, seus sonhos.
No caderno de contar a vida algumas páginas tingidas a nanquim. Nenhuma no entanto, que não tivesse alguns pingos coloridos a equilibrar os tons.
Assim a vida lhe parecia, assim lhe era. Papéis. Alguns tantos que lhe enchiam o carrinho. Outros tantos que via representados, assim como num espetáculo de marionetes ou em um teatro de sombras. Amassados, rabiscados, em branco, recortados, apagados. A encher pastas, gavetas, armários, peitos e almas.
A convicção da missão cumprida, da dignidade de ter lutado por mais um dia e a certeza de que tudo que lhe era caro estava no seu lugar.
Dormiria o que chamam de o sono dos justos até que o galo viesse a cantar. Até que o sol despontasse no beiral, até que ouvisse do fim da rua a voz do Chico, o velho companheiro a gritar:
_Papel, garrafa, latinha!

14 comentários:

Fábio Adiron disse...

E durante a noite sonhava sonhos de papel ?

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Elis. Parafraseando Erico Veríssimo, que dizia que existem escritores fecundantes, que inspiram a outros, poderia dizer que teu texto é inspirador em duplo sentido... Tanto quanto ao leitor, como a outro escritor. Nas tuas linhas outras linhas fiquei a compor na imaginação enquanto lia o teu texto... Parabéns, amiga... Sempre surpreendendo. Abrs, Zé.

Elis Zampieri disse...

Oi Fábio. Talvez fossem tão leves quanto, ou mais consistentes que. :-)
Abraços e obrigado pela visita e pelo comentário.

Zé,essa expressão escritores fecundantes me fez lembrar uma fala de Rubem Alves que diz que quando a cabeça engravida, fica prenhe de idéias não há nada que segure o corpo. E daí o desejo, aí a escrita, aí o ato de aprender, apreender ou extravasar.
Lisonjeada com o comentário.
Abraços Zé.

José Antonio Klaes Roig disse...

Elis, resolvi usar em tua postagem uma de minahs colagens antigas, de um papeleiro, pois creio que carrega em si a essência de teu belo texto. Nós, somos privilegiados pois vivemos do papel escrito; outros vivem do papel descartado. Entre o luxo e o lixo, pessoas tem seu papel social vital numa comunidade. É o papel nosso de cada dia. Um abração, e bom feriado.

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, fabio. Essa tua pergunta a Elis é interessante: "E a noite sonhamos sonhos de papel?" Sonhos de papel que não raras vezes tornam-se escritos no papel.

José Antonio Klaes Roig disse...

Se a vida é intertextual; os sonhos são intertextuais com a vida, parece-me. O que achas disso?

Elis Zampieri disse...

Zé, isso não é uma simples imagem, é um texto visual, intertextual. Suas composições tem essa característica muito fortemente retratadas. Gosto muito, sempre.
Parabéns amigo! Muuuuito bom!!!!

José Antonio Klaes Roig disse...

Brigadu, Elis. Gosto muito de mesclar imagens com texto. E essa colagem é uma de minhas preferidas. Uma terapia que virou depois uma forma de ilustração de textos. Tenho sentido falta de criar novas colagens, mas o tempo não permite. Um abração, Zé.

Só Eu (Ricardo) disse...

Olá Elis.
De salto em salto, eis-me no teu espaço. E que bem se está aqui.
Texto magnifico (com qualidades cinéticas. Quase se ouvem os pregões...)
Gostei muito e vou volat
Beijinhos
Ricardo

Fernando Costa disse...

Saudadesssssssssssssssssssssss

Querida

Elis Zampieri disse...

Oi Ricardo. Seja bem vindo retorne sim. Obrigado pelo gentil comentário!

Fernando. Sempre bom te receber de volta. Saudades de ti também!

Taissa Drummond disse...

Adorei as imagens que você cria com o bailar do texto! Parabéns!!

Fernando Costa disse...

Psiuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.

Vamos postar??????

Pra vc uma excelente semana.

Desta vez eu vim pra cobrar e deixar-te um abraço assim gigante.

Ah! tb vim dizer outra coisa: Saudadessssssssssssss!

Elis Zampieri disse...

Oi Fernando, compromissos offline me mentem afastada. As vezes é complicado administrar nossos "outros eus" Mas se não estou aqui, ando passeando por aqui: http://rabiscosdaelis.blogspot.com/ou por aqui http://sobreeducacao.blogspot.com/.

Bjo, saudades de ti também.