terça-feira, 7 de abril de 2009

Apenas um conto de fadas

Foto: Joaquim Pires Ferreira

Era um dia, como outro qualquer, quando o homem com aspecto de pacato - que sempre sentava-se a mesma hora, no mesmo banco da praça com seu inseparável livro nas mãos -, sentiu-se mal, faltou-lhe ar, desmaiou...
Quando voltou a si, o mundo cinza em que vivia, passou a ter uma cor vívida, beirando aquele efeito de colorização feito por computador. Mas isso ele desconhecia...
Estava ele ainda sentado na praça, quando uma bela menina de bermuda curta e com um boné vermelho, com a aba virada ao contrário, por ele passou, dirigindo-se entre os canteiros e arbustos, rumo ao centro da cidade. Atrás dela ia um senhor de meia-idade, com pés e mãos imensos, olhos arregalados, uivando atrás daqueles tenros rastros, procurando atalhar os próprios passos.
Noutra extremidade do ermo local, uma moça caminhava apenas com um calçado no pé, o vestido todo esfarrapado, olhando para trás, como quem fugia muito mais do que das horas. Era noite escura, porém o relógio da praça ainda não tocara as vinte e quatro badaladas... Quem a perseguia, queria mais do que devolver-lhe o outro pé do par de sapatos envernizados.
Mais adiante, um menino, no canto mais escondido da praça, colhia estranhas folhas de um pé que ele jurava para o vigilante ser apenas de feijão, que o levaria até às nuvens. Seus olhos estavam vidrados, como quem de fato estivesse bem longe, mas o terrível gigante que ele dizia enxergar, só desceria do céu se ele não pudesse uma antiga dívida saldar... Mas o vigia incrédulo lhe disse que fingiria não ver o tal gigante, se ele também lhe desse a sua parte...
Era já noite funda quando o homem ainda sentado na praça de novo passou mal. Ao voltar à tona, à realidade, tudo aparentemente estava na normalidade. Todos aparentavam o que diziam ser... Todos personagens de uma história sem autor... E o livro inseparável, caído ao chão estava, misteriosamente sem as suas últimas páginas, enquanto a menina do boné vermelho voltava do centro com sua bolsa dourada a girar...

6 comentários:

Gabriela disse...

Nossa muito show esse "conto de fadas". Pura verdade desfarçada de historinha.... Parabéns!

José Antonio Klaes Roig disse...

Oi, Gabriela. É uma releitura dos contos de fadas para nossa conturbada realidade. Que bom que você gostou. Um abração,

Elis Zampieri disse...

Oi Zé, a imagem que tive a ler seu texto foi essa, busquei por algo que desse a idéia de espaço entre real e imaginário. Muito bacana o texto!

Bjos e bom feriado!

José Antonio Klaes Roig disse...

Elis, ficou ótima a imagem. Dá um efeito hipnótico, meio caleidoscópico também, que ilustra o duplo desfalecimento do misterioso leitor, sem falar no colorido que tem tudo a ver com conto de fadas inspirados na realidade com seus tons carregados. Muito bom. Que você também curta esse feriado com a família, como farei aqui. Abraços nos colorados daí. hehehe :-)

marcos meier disse...

Elis, um abração pra vc e continue inspirada! Marcão
marcosmeier@gmail.com

Elis Zampieri disse...

Oi Marcos, prazer recebê-lo por aqui. Este é um espaço de produção literária colaborativa entre eu e o José Roig, também educador. Obrigado pela visita e volte sempre!

Um abração pra você também!