quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O mergulho profundo

Imagem: Clarisse Regueiró

E ali estava eu, o mergulhador, junto com meu filho, em viagem de férias à pequena cidade dos meus pais, já idosos. Pouca coisa tinha mudado naquela terra, exceto eu mesmo, o mergulhador...
Meu filho queria conhecer cada local que ele muitas vezes vira no álbum de fotografias da família, em especial, a prainha onde eu e meu pai íamos nos banhar nos verões, entre pequenas embarcações, um local de águas paradas e rasas...
Nem tínhamos ainda desembarcado da lancha e meu filho gritou: Olha lá, pai! A prainha com os mesmos barcos daquelas fotos amareladas que você sempre me mostrou! Eles são coloridos! Vamos lá? Agora?
Não me fiz de rogado e com a mão de meu filho bem apertada fomos os dois para aquele local mágico de minha infância. De fato, poucas coisas haviam mudado, exceto que para o menino que eu fui um dia, tudo antes era imenso e agora, com o devido distanciamento no tempo-espaço, as coisas tomavam o seu devido lugar. O espelho mágico agora era um espelho de vidro tão-somente. Se o local estava praticamente intacto, eu , o mergulhador, já não era mais o mesmo menino que via tudo com um olhar mágico e fantástico.
Meu filho, excitado, quis entrar na água de imediato, com roupa e tudo. Lembrei-me que naquela prainha, três décadas antes, eu também tomava banho de cuecas com meu pai, e assim o fizemos. Era um dia de semana, como outro qualquer, com poucas pessoas nos arredores, mais pescadores indo pescar na lagoa adiante. Então, eu e meu filho, como cúmplices de um pequeno delito, deixamos sobre um barco encalhado no raso, nossas mochilas e roupas suadas, e somente de cuecas adentramos àquelas águas plácidas.
Depois de alguns instantes, meu reflexo na água parecia não mais me pertencer. Ficara distorcido pelas pequenas ondas que meu filho, numa imensa alegria, fazia ao meu redor. Dei alguns passos adiante e um pequeno buraco foi agigantando-se de forma inexplicável. Ou quem sabe pelo meu peso elevado. Algo dentro do mergulhador disse: aprofunde-se mais. E assim o fiz, respirando fundo e mergulhando naquelas águas rasas. Foram apenas alguns segundos...
Mas o inacreditável e o inexplicável aconteceu. Meu mergulho que era para ser breve e curto, diante da pouca profundidade do local, acabou sendo fundo demais, indo além da minha imaginação. Quando quase perdia o fôlego, resolvi subir à tona.
Ali encontrei meu filho ainda ao lado da embarcação, estranhamente com a pintura renovada. Olhei ao redor e as imagens estavam levemente alteradas, até o ar estava mais puro. Chamei meu menino pelo seu nome, mas ele sequer se virou, e quando o fez, pela minha insistência, o menino disse: Quem o senhor está chamando moço, se só estamos aqui eu e você? Naquele momento, gelei. Quis disfarçar e perguntei ao menino se ele estava só. Sua resposta provocou-me um arrepio: Não, meu pai estava aqui, mas deu um mergulho e ainda não voltou...
Diante do insólito, tentei me acalmar e não preocupar o menino com o sumiço de seu pai... Olhando-o bem, vi a incrível semelhança com as fotos amareladas de meu álbum de família e com meu filho também... Ele era a cara de meu garoto, mas na verdade se parecia muito mais comigo, quando tinha a sua idade. Essa constatação arrepiou-me mais ainda... E se... Não!, exclamei para mim mesmo, isso não pode estar acontecendo, não posso estar em frente a mim mesmo, só que trinta anos no passado! Esse paradoxo é impossível, diante das leis da física!, pensei em voz alta.
Não tive tempo sequer de me acostumar com o fato, pois quando pensava em aproveitar aquele momento para visitar as ruas e as pessoas de meu passado, eis que algumas bolhas de ar começaram a surgir próximo de onde eu estava em pé, com as águas pelo joelho. De forma instintiva, o mergulhador que vive em mim não pensou duas vezes e mergulhou em si e dentro d'água.
Quando voltei à tona, o menino ao meu redor parecia assustado... Sem saber em que época estava, perguntei a ele o que acontecera. O menino somente disse: Não sei pai, você mergulhou e voltou muito rápido, mas você não era você, e dizia que era meu avô... Somente hoje, entendi uma antiga lembrança que tive no passado de algo que pensei ser pura imaginação infantil...
Há certos mergulhos tão profundos que nos levam a sonhos perdidos, alguns parecendo reais, outros tão reais que parecem imaginação... (Nem sempre, nós, o mergulhador, temos tempo para fazer a devida despressurização emocional... Passamos tanto tempo querendo ser alguém e muitas vezes sequer somos nós mesmos... Salvo, quando em alguma poça d'água, encontramos um lago fundo para um mergulho profundo em nossa emoção perdida...).

2 comentários:

Elis Zampieri disse...

Que mergulhos nos levem e nos tragam sempre. Que esse estar em si, repousar-se, adentrar-se nos permita o reconhecimento de nossa alma, a nossa essência e substância maior.
Belo texto Zé.

glória disse...

"Se o local estava praticamente intacto, eu , o mergulhador, já não era mais o mesmo menino que via tudo com um olhar mágico e fantástico"


Você será sempre essa extensão infinita de fios do tempo.

belo!

bj